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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Esperar

Considero-me uma pessoa forte psicologicamente, apesar de choro fácil, tento ver o lado positivo das coisas, tento não me deixar abalar pelas situações, mas não é fácil, acreditem que não é.

Quem se aventura nesta viagem da procriação medicamente assistida (PMA) num hospital público tem que estar preparado psicologicamente e tem que ter muito jogo de cintura para lidar com todo o tipo de informações e situações que vamos enfrentando ao longo do processo.

Aqui não há falinhas mansas, aqui é tudo dito a frio, dói, queima a alma, mas sinceramente agradeço que assim seja. Não aguento o "tenham calma", "vão ver que quando relaxarem vão conseguir" ou o " se não pensarem no assunto irá acontecer". Não. Não irá acontecer sem a intervenção da ciência. 

Não é fácil esperar 5 meses por uma primeira consulta. Não é fácil esperar quase 2 meses para a segunda consulta. Ninguém nos preparou para isto. Não é fácil ouvir que temos de fazer mais exames. Esperar mais 2 meses para mostrar esses exames. Marcar novos exames e esperar. 

Esperar foi a minha palavra do ano em 2017! Por vezes já não sei se "quem espera sempre alcança" ou se "quem espera desespera".

Esperamos mais de 6 meses por um resultado de um exame genético e agora continuamos à espera para marcar consulta para saber dos resultados. Conto já com quase 16 meses de espera desde que nos inscrevemos para a primeira consulta. Sei que vou esperar muito mais. 

Logo eu, que odeio esperar, que detesto que me peçam para ter calma, eu aprendi a esperar, quem diria! Se é fácil? Se fosse fácil não era para nós! Deus dá as maiores batalhas aos seus melhores guerreiros, só espero estar à altura do desafio.

E não, não me estou a queixar, é só um desabafo. É só para as pessoas que como eu quando procuraram informações na primeira pessoa na internet tenham noção que todo o processo é lento, demorado, que temos de ter algum estofo para aguentar esta espera, que não nos podemos esquecer de viver a vida enquanto tudo isto decorre.

E sim, esperar é para meninos, quando comparado com a brutalidade da intromissão e comentários dos outros sobre a temática "ter filhos". Quando esses comentários vêm de pessoas que até passaram pelo mesmo, custa, custa muito. A nossa opção de não expor a situação possivelmente também contribui para que todos se achem no direito de opinar. Não querem mais que nós. Mas nós não queremos dramas, não queremos juízos de valor e acima de tudo não queremos ser os "coitadinhos que não conseguem ter filhos". 

Não, não estou a exagerar, já vi de perto a infertilidade de outros, esses mesmo que agora nos pedem filhos sem sequer por a mão na consciência. Já vi o drama que foi. Não quero isso para nós. Não quero ter de lidar com as frustrações e expectativas dos outros. Já nos chegam as nossas. Acima de tudo, sabemos quem somos e o que somos, não vamos passar a ser coitadinhos só porque precisamos da ajuda da ciência para ter filhos. 

E às pessoas que tentam impor filhos aos outros, vivam a vossa vida, não se preocupem em opinar sobre a nossa. Se não têm nada de bom pra dizer estejam calados.  


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O nosso problema de infertilidade

O problema de infertilidade de um casal nunca é um problema de um dos elementos, é sempre do casal, podendo ter fator feminino ou masculino ou mesmo sem ter uma causa definida o problema é sempre do casal.

No nosso caso o fator é masculino, mas será em mim que irá incidir o tratamento, logo é um problema dos dois.

Não foram poucas as vezes que desejei que o fator de infertilidade fosse meu, porque provavelmente seria mais rápido ou por não ser tão invasivo para nós dois.

O nosso problema de infertilidade chama-se azoospermia e é das principais causas de infertilidade masculina.

No mesmo dia que o nosso mundo caiu nós secamos as lágrimas e fomos à luta, no dia em que recebemos o resultado de um espermograma feito num laboratório de análises clinicas eu soube que não podíamos esperar mais e inscrevi-nos para as consultas de apoio à fertilidade para os centros PMA da nossa área de residência.

Hoje, com a devida distância desse dia, agradeço todos os dias o avanço da medicina e da ciência porque à pouco mais de 30 anos o nosso problema estaria dado por encerrado por não ter solução.



segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Aprender a relativizar

Temos um problema de infertilidade, mas isto não nos condiciona enquanto pessoas, fazemos a nossa vida normal. Temos uma casa, emprego, família, amigos e saúde. Sempre que coloco tudo na balança vejo sempre mais coisas positivas, o meu copo está sempre meio cheio!

Durante estes dois últimos anos aprendi a esperar, a ter paciência, a não querer ter o controlo sobre tudo e a relativizar a situação. Eu ainda não tenho um filho, mas conheci pessoas que perderam os deles com dias de vida. Temos um problema, mas conheci pessoas com problemas de saúde graves e que nunca baixaram os braços ou deixaram de sorrir. Que direito tenho eu de me queixar da vida? Nenhum! É levantar a cabeça e encarar os problemas de frente! Um dia li algures: " Não digas a Deus que tens problemas, diz aos problemas que tens um grande Deus!" 

Acho que a pergunta "porquê a nós?" nunca me incomodou, porque nunca a achei pertinente, se assim fosse então "porquê aos outros?".

E é assim que vão passando os nossos dias, firmes e fortes e com a maior fé do mundo enquanto aguardamos numa lista de espera de um hospital público que teima em testar a nossa paciência!